Trump, Bolsonaro e o uso de desinformação em eleições

Entrevista com David Nemer, antropólogo da tecnologia e professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos.

 Imagem: Rodrigo Bento/The Intercept

Por que o ambiente digital é tão propício para a propagação de fake news?

Ele é propício tanto pela facilidade quanto pela eficiência. Antes, você teria que ir em uma banca comprar o jornal ou fazer uma assinatura. Além de o acesso ser mais dificultado, também tem um custo mais caro. Hoje em dia nós temos o WhatsApp, então as coisas são entregues a nós na hora, em qualquer lugar, em qualquer momento. Então, fica propício a entrega de qualquer informação, tanto informação boa quanto informação ruim. Mas infelizmente nós estamos vivendo o problema hoje de fake news, de desinformação, que toma proveito dessas facilidades de compartilhamento de informação. 

E quais são os segmentos em que há mais disseminação de fake news? Política, ciência, educação? Ou ainda não tem alguma coisa definida?

Sim, tudo vai estar ligado ao clima político que a gente vive. Então, se a política estiver falando de coisas relacionadas à educação, vai ter fake news que vão falar de educação, mas cujo objetivo, no final das contas, é ter um ganho político. Isso tudo vem tanto do discurso do Bolsonaro ou de aliado ou até mesmo dos oponentes. A intenção é ganhar em questões políticas.

Infelizmente ninguém está interessado em debater planos de aula, planos pedagógicos para tentar melhorar a questão da educação. Se fala muito em ideologia de gênero, marxismo cultural para demonizar a nossa educação.

Acho que o principal problema desses governos mais alinhados à direita e extrema-direita que tem esse discurso, não só o Trump, mas o Bolsonaro, é a população também comprar esse tipo de discurso. Essa coisa de ideologia de gênero, de kit gay, que nunca foi comprovado, muita gente comprou esse tipo de absurdo.

A estratégia da extrema-direita é primeiro deslegitimar qualquer canal de mídia, por isso o Bolsonaro entrou nesse pé de guerra com a Globo e com a Editora Abril, por serem de grande abrangência e serem líderes do mercado. Então, já sabendo disso, ele já foi atacando esses meios de imprensa porque aí as pessoas já não acreditam na mídia. Ele pode falar o que quiser, a Globo, Folha de São Paulo, por exemplo, pode desmentir, mas não adianta porque as pessoas já estão em descrédito com a mídia.

Esse ódio ou esse discurso é resultado de ignorância, porque você só consegue odiar alguma coisa quando você não conhece. Por isso esses espaços acabam sendo radicalizados ou radicalizantes, cada informação ou fake news que é compartilhada é visando aumentar esse ódio. Que é ódio do desconhecimento.

Quais são as redes sociais mais suscetíveis de disseminação de mentiras? Facebook, WhatsApp? E por que essa rede possibilita mais disseminação de mentiras?

Todos eles fazem parte de um ecossistema de fake news, mas pelo fato de o Facebook ter sido um dos maiores players em fake news em 2016 nas eleições americanas, ele recebeu uma reputação bem ruim, merecidamente, então eles começaram a tentar diminuir a circulação de mentiras. Não baniram, mas tentarem diminuir. E com essa tentativa, agora essas pessoas que querem capitalizar em cima de fake news vão tentar evitar o Facebook, porque ali vai ter um tipo de barreira. Por mais que a barreira seja pífia, vai ter. Eles vão para o WhatsApp, porque ele proporciona essa conexão ponto a ponto, criptografada, no qual a empresa não tem o menor controle do conteúdo da mensagem. O WhatsApp acaba criando um canal quase que perfeito para isso.

No caso do WhatsApp, não há como controlar a disseminação de mentiras?

Não, porque não tem como ter acesso ao conteúdo e não tem como classificar aquele conteúdo como fake news. Existem maneiras de você ter uma suspeita. Não tendo acesso ao conteúdo, mas  eles sabem exatamente quantas vezes você mandou uma mensagem para um amigo, quantas vezes você ligou para uma amiga, de onde você ligou, a localização, em que horário.

Recentemente, aqui no Brasil, uma reportagem do Intercept divulgou que o algoritmo do Youtube favoreceu o crescimento de canais de extrema-direita nas eleições do ano passado. O YouTube se pronunciou e disse que vai mudar as diretrizes da empresa para que isso não aconteça mais, mas até o momento isso não aconteceu.

É aquela coisa, por serem empresa privada, elas não tem obrigação de serem transparentes, o que é uma pena.

Trump e Bolsonaro foram eleitos com apoio maciço de fake news. E, surpreendentemente, eles continuam desinformando a sociedade. O discurso do Bolsonaro  é uma prova disso. Você acredita que isso seja uma política institucional desses governos?Qual é o objetivo de disseminar desinformação?

É sobre controle e poder. Foucault fala muito bem sobre isso. Você tendo o controle da população, você se mantém no poder. É um plano de poder.

Qual o interesse da Rússia em disseminar fake news a favor do Trump?

Ainda não está muito claro quais foram os reais objetivos da Rússia. Todo mundo sabe que o Trump e o Putin estão envolvidos em coisa obscura, mas não se sabe direito qual é o objetivo para valer.

Você acredita que a CPI das fake news, apelidada pelo próprio governo de CPI do fim do mundo, poderá desmantelar esse esquema de desinformação que ajudou a eleger o Bolsonaro? Já se sabe quem são as pessoas e os empresários envolvidos na compra do disparo de mensagens em massa?

Não vai ter muito resultado se o Flávio e o Eduardo Bolsonaro estiverem envolvidos como eles estão agora, não faz o menor sentido isso. 

Em um artigo no Intercept,  você revelou que os grupos bolsonaristas no WhatsApp seguem ativos e ainda mais radicais. Qual o perfil dessas pessoas que ainda apoiam o Bolsonaro e como é o comportamento desses apoiadores em fóruns como o 4chan?

Eles estão mais radicalizados, estão em números menores, mas que podem fazer um estrago maior. Eles estão em constante processo de recrutamento, eles querem expandir mais os grupos deles, o grupo mais extremistas. Eles não estão muito preocupados com a política do dia a dia, mas se capitalizam em cima do discurso de extrema-direita dele e do Flávio, principalmente, eles jogam ali (em fóruns e redes sociais) conteúdos que despertam interesse. Conteúdos racistas, anti-LGBT e tentam conduzir os usuários a entrar nesse ATM e 4chan, porque lá eles dizem que têm acesso a conteúdo mais chocantes, mais interessantes do que se pode compartilhar no WhatsApp. As pessoas se sentem atraídas, lá é uma loucura. Terra de ninguém. Cada coisa bizarra que eles veem, que está se normalizando. Esse é o processo de radicalização.

A democracia brasileira é recente e bastante frágil, mas a democracia norte-americana é reconhecida como uma das mais sólidas do mundo. Por que, então, o Trump foi eleito? O que propiciou que esse tipo de candidato “outsider” tivesse tanta projeção?

O governo Obama, principalmente no segundo mandato, foi bem audacioso em políticas de inclusão, sobretudo inclusão para as minorias. Por isso, eu acredito que o conservador americano, que é bem forte aqui, se sentiu ameaçado. Se sentiu ameaçado pelo politicamente correto. É mais ou menos o movimento que ocorreu no brasil.

 E você acha que além dessa característica do presidente Obama o jornalismo teve, de alguma forma, responsabilidade na eleição do Trump?

Sim, teve. Na época das eleições, o Trump estava 24h nos canais CNN e Fox news. Falando mal ou bem, eles deram muita visibilidade a ele. Então, realmente, o jornalismo teve sim uma parcela dessa culpa.

Você acredita que o jornalismo pode se fortalecer nesse atual momento de desinformação?

Sim. Mas o jornalismo tem que se reinventar, até pela sobrevivência do negócio, tem que tomar de volta o importante papel que o jornalismo tem na sociedade, o jornalismo funciona como um aliado do povo. O jornalismo tem que ter uma profunda análise e tem que se reinventar, ainda mais agora, porque toda democracia forte tem uma imprensa forte, uma imprensa independente. 

Quais são suas perspectivas sobre esse ecossistema de desinformação nas próximas eleições? Ele vai continuar atuando para manipular resultados?

Vai continuar, lógico, já perceberam que é um modelo que funciona, e um modelo efetivo, eficaz. Vai caber às nossas instituições democráticas agir sobre isso.

Nas eleições do Brasil, a gente viu tanto o Bolsonaro quanto a Joice Hasselmann colocando nos canais oficiais deles que as urnas tinham sido hackeadas, que as eleições foram hackeadas, e o TSE viu tudo isso e não fez nada, não falou nada. Enquanto as cortes não refletirem sobre o papel delas nas sociedades nesse tempo de crise, realmente vai ficar muito difícil.

 

Entrevista feita por Skype.

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