Como as notícias falsas afetam a ciência e as universidades

Ilustração de um modelo da terra plana (Crédito: reprodução)

Nos últimos anos, ideias como a defesa do terraplanismo e o movimento antivacina têm ganhado notoriedade ao redor do mundo. Embora sejam calcadas em conceitos superados pela ciência há muitos anos, estas convicções são embasadas e repassadas por meio de notícias falsas e outros tipos de desinformação.

Ao mesmo tempo, as universidades, com destaque para as públicas, responsáveis por 95% da produção científica do país, são alvo constante de críticas do governo brasileiro e vítimas de severos cortes de verbas em março de 2018.

“Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiveram fazendo balbúrdia, terão as verbas reduzidas”, afirmou o ministro da educação, Abraham Weintraub, em abril de 2018.

Para falar sobre este contexto de descrença no pensamento científico e investidas contra as universidades, a Agência Ruptura conversou com a jornalista, professora da Unicamp e doutora em política científica, Sabrina Righetti.

A ciência sempre foi alvo de desconfiança, principalmente de alguns pequenos grupos. Só pra citar alguns exemplos: grupos que não acreditam em vacinas, que acreditam que a Terra é plana, entre outros. No entanto, a impressão que se tem é que esses grupos estão tendo cada vez mais espaço no ambiente digital. Você acredita que esse ambiente é propício para esse tipo de desinformação? E o que você associa a esse fenômeno de revisionismo científico?

Primeiro eu queria só pontuar uma coisa. Ser crítico à ciência não significa você ser anticientífico. Eu trabalho com uma área chamada Percepção Pública da Ciência, que basicamente faz um levantamento da sociedade para ver o quanto que ela é crítica, o quanto ela se interessa e conhece sobre ciência. A gente vê que países com escolaridade melhor, tipo países escandinavos, a população é mais crítica à ciência. Então ela é crítica. Ela olha a ciência e fala ‘puts, não acho que isso vai me trazer benefício, não acho que isso tem que investir aqui, quero saber melhor o que são esses agrotóxicos que eu estou consumindo. Então é uma postura crítica e não uma postura totalmente de que a ciência é legal, só os cientistas são do bem. Ser crítico é uma coisa. Outra coisa é ter um comportamento anti científico. Existem evidências científicas de que a gente precisa vacinar a população, de que a vacina realmente evita doenças muito graves, mas eu não acredito, a ciência não é baseada em crenças, assim é a religião. Você acredita em deus ou não. A ciência é baseada em evidências. Uma evidência científica de que é preciso vacinar, de que a Terra é redonda, de que o planeta está aumento a temperatura. Então, você não acredita ou desacredita, você pode negar essa evidência com outra evidência. É assim que funciona a ciência. O comportamento anti científico é o que trata a ciência como uma crença. Você fala ‘eu não acredito nisso, eu acredito em outra coisa’. Esse fenômeno, na verdade, é antigo. Faz tempo que tem os grupos de conspiração. O que me parece, eu não tenho uma resposta totalmente clara pra isso, é que a internet possibilita que pessoas se juntem. Então, se tinha uma pessoa que pensa que a Terra é plana e existe uma grande conspiração, que são os conspiracionistas, da Nasa e tudo mais, e outra pessoa em São Paulo e outra em Bauru, agora elas se juntam. A internet possibilita que esses movimentos se fortaleçam, porque junta uma galera que pensa essa coisa conspiracionista, anti científica. Parece, assim, que isso sempre houve de maneira dispersa, mas a internet juntar esse pessoal e, portanto, ganha força e aparece. Porque aí surge como um movimento de pessoas falando ‘ó, a Terra é plana’. E antes era aquele tio esquisito do jantar, tava tudo disperso. Agora é um movimento. 

Além da política, a ciência é uma das áreas com maior número de disseminação de fake news. Quais as consequências imediatas da desinformação científica? Você acredita que o cidadão comum sabe identificar uma fake news?

Não. O primeiro problema é que a gente (Brasil) tem uma educação científica de base muito ruim. Uma evidência disso é a prova do PISA, que é feito pela OCDE e que avalia ciências. A última foi feita em 2016, a próxima vai ser divulgada provavelmente em dezembro deste ano, é a cada três anos. A prova do PISA mostra que a gente é um dos piores países do mundo em educação científica. O que significa que a gente conhece muito do que é ciência, o que é uma evidência científica, o que tem no rótulo do shampoo, o que tem no rótulo do medicamento, o que é um composto, o que é uma molécula. A gente não sabe nada disso, porque a educação científica é muito ruim, incluindo o de escola particular. A educação científica do País é muito ruim. A gente tem uma formação péssima. Então, se você soma a educação péssima com as fake news em ciência e a dificuldade das pessoas identificarem uma fake news, isso é muito claro e isso é outro problema, que é o problema de não ter cultura de leitura, de verificação de informação, de interpretação, é um problema mais de educação de línguas mesmo, que o PISA também avalia e também mostra que somos um dos piores países do mundo. Então a gente é muito ruim em ciência, é muito ruim em línguas, a gente não tem cultura de leitura. O Brasil está entre os piores países que menos leem livros no mundo, que se informa muito mal. O maior jornal do país, que é a Folha, tem poucos leitores, se comparar com outros países desenvolvidos e seus respectivos maiores jornais, em termos de porcentagem da população. Então as pessoas não leem, não sabem como se informar, e elas têm uma educação de base muito ruim. E aí, quando ela recebe uma notícia falsa em ciência, como que ela vai discernir? Se ela não tem hábito de receber informação, se ela não se informa, se ela não sabe interpretar um texto direito, isso mesmo sendo escolarizada, não é uma questão de quem não é escolarizado, e se ela não entende de ciência, ela vai pegar aquilo e vai falar ‘bom, então é isso..’ e vai sair espalhando e vai chegar em um monte de gente que também tem as mesmas dificuldades que ela. Então, a informação vai espalhando. E tem já uma literatura que mostra, eu não sou especialista em desinformação, que a desinformação circula mais rápido que a informação Ela é mais atrativa, ela tem sempre alguma coisa bombástica, ela tem um texto que desperta sentimentos. Desperta raiva, desperta ódio, aí você quer espalhar aquilo. Se eu não tenho capacidade de entender que aquilo é uma desinformação, e se aquilo é mais atrativo, eu espalho. Esse é o grande problema da informação científica.

Você acredita que nesse atual momento histórico e político o jornalismo perdeu a credibilidade? Se sim, como fazer o jornalismo, sobretudo científico, retomar a sua credibilidade?

Eu não sei se perdeu a credibilidade, não. Bom, como você falou ‘você acredita’, eu não tenho evidências para isso, eu tenho percepções. Mas eu não sei se perdeu a credibilidade, eu acho que quem questiona, tudo bem questionar a imprensa, novamente o pensamento crítico sobre a imprensa é ok, mas quem descredibiliza a imprensa também descredibiliza outras instituições, por exemplo, a universidade. Então, existe um movimento de descredibilizar, como se fossem instituições pensantes, né? A imprensa e a universidade.Quem fala que a universidade só tem vagabundo, que a imprensa mente, que os jornalistas mentem, sempre pensou assim. Eu não acho que alguém que lia um jornal, de repente vai deixar de ler um jornal porque o presidente falou que o jornal mente. Isso eu não acho que acontece. Eu acho que as pessoas começaram a falar isso mais. E talvez empoderados, encorajados pelo próprio governo do Brasil, dos Estados Unidos, que são governos que estão descredibilizando instituições pensantes. Isso está acontecendo em vários países. Criticam jornalistas, criticam professor, tudo o que é pensante para descredibilizar. Mas eu não acho que tem um movimento que é crescente de descredibilização, não. Eu acho que o que está crescendo é a quantidade de pessoas que está simplesmente opinando sobre isso, porque acha que é ok falar sobre isso. Quando eu estava na graduação, não pegava bem você falar mal de universidade, mal de imprensa. Era inadmissível quando eu comecei a ser jornalista que governantes tivessem posturas em coletivas de imprensa como hoje tem. Era inadmissível. Jamais um governante deixava um jornalista falando sozinho, xingava os jornalistas, e isso ficava por isso mesmo. E isso está acontecendo várias vezes por dia hoje em dia. Na própria posse do Bolsonaro, eu acompanhei amigos meus, que a posse foi um caos de cobertura. Eles deixaram jornalistas confinados lá dentro, numa área de Brasília, não tinha banheiro. É inadmissível você tratar jornalista desse jeito. O que eu acho, aí entra a minha subjetividade, de uma pessoa que é otimista, que isso pode fortalecer a imprensa. Porque do mesmo jeito que nos EUA a população, que obviamente é mais escolarizada que no Brasil e tem uma democracia mais forte, as pessoas começaram a se dar conta de que fake news era um problema e que o Trump estava contra a imprensa. E o que aconteceu? O número de assinaturas do New York Times disparou. Atingiu o recorde histórico. Então eu acho que na verdade é ao contrário, esses ataques podem fortalecer. Quando o Bolsonaro deu a primeira entrevista para o Jornal Nacional depois de eleito e criticou nominalmente a Folha, o número de assinante da Folha aumentou. Eu não acho que isso vai acabar com o jornalismo, eu acho que, na verdade, o jornalismo vai se fortalecer, vai reagir.

Seguindo a linha do atual governo de criticar instituições científicas, as universidades têm sido alvo constante de crítica, grande parte infundada, de uma parcela da sociedade. Você acredita que isso acontece porque elas são distantes da sociedade? As pessoas desconhecem o que acontece dentro da universidade?

Sim. Eu acho que totalmente. Na verdade assim, eu vou separar a sua pergunta. Eu acho que as universidade públicas estão sendo agredidas com informações falsas, porque não é uma crítica do tipo ‘precisamos melhorar tal aspecto’, porque seria muito legal se o governo falasse ‘temos evasão alta, precisamos melhorar. Elas estão sendo agredidas com informações falsas. O Bolsonaro dá uma entrevista falando que só universidades privadas produzem pesquisa no Brasil, o que é mentira. Depois o ministro fala que as universidades fazem balbúrdia no lugar de desempenhar academicamente, o que é mentira. Então, elas estão sendo agredidas. O Bolsonaro sempre foi contra universidade, e quem está no comando, quem está seguindo e fazendo isso, sempre foi contra universidade. O que me preocupa é que, por causa do distanciamento da universidade pública com a sociedade, que é real, e é um problema, a reação é menor. Então, quando a gente faz uma marcha pela ciência, depois de ter cortes mil, não vai quem não é cientista. Ou seja, a universidade está distante das pessoas, não é que as pessoas vão agredir a universidade por causa disso, porque isso quem faz é uma parcela pequena. Mas elas não vão lutar pela universidade, porque elas não entendem o que é ciência. A última pesquisa de Percepção Pública da Ciência, que foi lançada em julho de 2019, mostra que 90% das pessoas não sabe citar o nome de uma instituição de pesquisa e nem o nome de um cientista brasileiro. Quando citam é Oswaldo Cruz, Santos Dummont, os dois já morreram há um século, e Marcos Pontes, que nem é um cientista, é o Ministro da Ciência. Ou seja, se eu não conheço, se eu não sei falar o nome de uma instituição, se eu não conheço um cientista, se eu não entendo o que é a ciência, porque minha educação de base é ruim, se eu não sei o que a ciência faz, se eu não sei como a ciência se conecta na minha vida, como eu vou defender a ciência? O distanciamento é um problema para o engajamento. O país é uma potência agrícola, que é mesmo, por causa de cientistas. Tem-se soja por causa de cientistas. É uma potência em tudo o que a gente consegue ser por causa da ciência. Se as pessoas não entendem isso, elas não vão defender. Elas também não entendem que não apoiar a ciência sai mais caro, porque se a gente não desenvolve coisas aqui, a gente tem que importar as coisas, necessariamente. Então, elas caem facilmente em desinformação. Eu não acho que o ataque seja pelo distanciamento, tanto que o ataque vem justamente de quem é de dentro, o Weintraub (Ministro da Educação) é um professor da Unifesp, ele não é distante. Ele é uma pessoa, sei lá, ressentida, não sei, ele ataca a universidade. Mas o problema do distanciamento é que não tem engajamento.

Então, quando a gente faz uma marcha pela ciência, depois de ter cortes mil, não vai quem não é cientista. Ou seja, a universidade está distante das pessoas, não é que as pessoas vão agredir a universidade por causa disso, porque isso quem faz é uma parcela pequena. Mas elas não vão lutar pela universidade, porque elas não entendem o que é ciência.

(Sobre a produção de ciência em Humanas): O que é ciências na escola? Biologia. A História, a Filosofia, quando tem, é outra coisa. Tem as ciências e tem as humanas. Aí você vai ler os jornais, o que é ciência, na editoria de ciência? É hard science, biologia, ciências da Terra, mudanças climáticas. Não tem filosofia. Ciências humanas está no caderno de cultura. Então, o tempo inteiro fico recebendo informação do que é ciência, e as ciências humanas não estão nessa informação. Então quando alguém falar ‘vamos cortar dinheiro das ciências humanas’, você fala ‘ué, mas ciências humanas é ciências? Nunca fique sabendo disso, porque na escola não é assim, na imprensa não é assim. Então, novamente, pela falta de contato com a ciência, com a universidade, eu não apoio. Não é que eu defendo que corte, é que eu não apoio que não corte, porque eu não entendo.

Que consequência pode haver a longo prazo de pessoas sem formação técnica, como o autointitulado filósofo Olavo de Carvalho, estarem ganhando tanta projeção e influência na sociedade e no atual governo?

Eu acho que a consequência é a curto prazo, e a consequência já está acontecendo. Temos uma pessoa que não tem formação para fazer as afirmações que faz, que é o caso do Olavo de Carvalho, e que orienta um governo, portanto, ele orienta políticas públicas. Isso já uma consequência de curto prazo. Se a gente tem um pseudo intelectual que é o guru do governo, e o governo diz isso, a gente já tem uma consequência. Ele está definindo o que vai ser feito pelo governo ou não, o que é prioridade do governo ou não. Isso é muito grave, porque é uma pessoa que além de ter questões da filosofia, enfim, ele é uma pessoa que afirma coisas. Por exemplo, ele afirma que o cigarro não faz mal, sendo que tem zilhões de literaturas que mostram que o cigarro causa câncer e um monte de outras doenças. Se temos um guru que nega todas as evidências científicas de um monte de áreas, inclusive áreas que não são nem perto da dele, supondo que ele fosse um filósofo, é um filósofo falando que cigarro não faz mal, baseado em crença. Porque ele não leu os estudos, não tem nenhum estudo científico no mundo que diga (novamente, não é crença, tem que ser uma evidência rebatendo outra) que o cigarro não faz mal. Ele diz e ele orienta a política. Então, de repente, amanhã a gente pode ter uma política pública que decida que tudo bem voltar a fumar dentro de avião ou dentro de restaurante, porque se ele está falando isso.. Esse é que é o problema do pseudo cientificismo, que ganham notoriedade, porque elas podem se tornar influenciadores, inclusive de política pública. Eduardo Bolsonaro, que pode ser embaixador, é um cara que vai definir política pública e está se baseando nesses caras (canal do YouTube acusado de fake news), isso é bem perigoso.

Entrevista feita por Skype.

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