A desinformação como arma política

Rogério Christofoletti é jornalista e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina 

No seu texto “A liberdade é uma condição para o jornalismo ético”, você aponta diversas ações realizadas pelo governo Bolsonaro de perseguição contra jornalistas. Você acha que a sociedade está atenta e se empenhando em defender o jornalismo brasileiro?

A sociedade não é homogênea, ela é o resultado de embates, de interesses conflituosos e prioridades difusas. Neste sentido, não dá pra esperar que a sociedade defenda o jornalismo. Ela é um emaranhado de coisas, e as ações do governo Bolsonaro (e dos próprios governos estaduais) têm motivado as parcelas da sociedade a buscar sobreviver e a buscar se adequar. O jornalismo presta serviços à sociedade, mas nem sempre é valorizado ou defendido na medida em que sofre ataques. Precisamos insistir e resistir, pois há uma agenda anti-jornalismo por parte do governo federal e por parte dos demais governos que não enxergam no jornalismo um ator que ajuda a fiscalizar e a mediar as relações com a sociedade.

Você acredita que o comportamento do presidente e de seu governo incentivam a autocensura dentro dos veículos jornalísticos? Como você avalia a cobertura jornalística que vem sendo feita?

Sim, pode resultar em autocensura, mas me preocupa mais é a atitude beligerante do presidente e de seus ministros, que não só espalham informações falsas, mas desacreditam a imprensa que apura e os próprios órgãos do governo que produzem dados importantes para a sociedade.

Temos observado que a propagação de desinformação foi uma estratégia usada pelo presidente durante as eleições e que se mantém durante o seu governo. Você acredita que essa seja uma estratégia comum em governos de caráter autoritário?

Sim, há uma instrumentalização das redes sociais, como já se observa nos casos Trump, Brexit e Bolsonaro.

Existe uma crise de credibilidade pela qual o jornalismo está passando. O estudo global Edelman Trust Barometer 2018, realizado pela agência Edelman, apontou pela primeira vez que a mídia é a instituição menos confiável ao redor do mundo. Além do desafio em lidar com a propagação intensa de desinformação, quais ações são necessárias para que o jornalismo volte a ter uma maior credibilidade?

O jornalismo precisa repactuar com seus públicos, precisa ser intransigente em seus princípios e procedimentos de rigor de apuração, precisa buscar novas formas de reforçar o senso comunitário, e tudo isso leva tempo. Mas precisa ser feito.

 

Entrevista feita por e-mail.

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