O jornalismo na era das fake news

Entrevista com Roberto Cabrini, jornalista com passagem por diversos veículos de comunicação. Atualmente apresenta o Conexão Repórter, no SBT

Como o jornalista pode se inserir no contexto das fake news? O que o jornalista deve fazer para mudar o cenário do jornalismo declaratório?

Questionar e estar aberto à realidades. Eu acho que você tem que questionar o presidente quando ele fala bobagens, quando ele muda a realidade, quando ele mente. E você tem que, ao mesmo tempo, estar aberto para possíveis acertos. Nenhum dirigente, nenhum segmento ideológico vai cometer só erros ou só acertos. Cabe ao jornalista estar atento para identificar virtudes e apontar defeitos, questionar defeitos. O jornalista tem que ser sempre um grande questionador, mas ao mesmo tempo tem que estar preparado para apontar qualidades. Eu acho que esse é o nosso maior desafio, principalmente nesse momento, onde isso está muito difícil, porque o jornalismo está muito contaminado pela partidarização. Então, você analisa um fato pela procedência ideológica dele, e não pelo mérito da questão. Essa é uma armadilha muito grande e é um processo profundamente “emburrecedor”, eu diria, porque ele privilegia ideologias em detrimento de fatos.

Como o jornalista deve enfrentar o ecossistema de desinformação que domina, principalmente, as redes sociais?

A gente tem que permanecer fiel a determinados valores, à nossa essência. Qual é a nossa essência? A da reportagem e a da reportagem que privilegia o direito do contraditório. É muito fácil você entrevistar pessoas com as quais você concorda, mas você só vai exercer jornalismo quando você entrevistar pessoas com as quais você discorda, muitas vezes radicalmente. Porque o dever do jornalista não é fazer com que as pessoas repitam os seus valores individuais, o dever do jornalista é munir as pessoas de melhores informações, para que elas possam tomar melhores decisões, que muitas vezes podem contrariar aquilo que você iria decidir. Não é fácil, porque isso demanda abrir mão de determinados valores, valores familiares, culturais. Então, eu acho que a atenção tem que ser permanente para que a essência da nossa profissão não se perca nesse emaranhado de armadilhas. 

 

Entrevista feita em São Paulo, na SET Expo 2019.

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