O uso de memes como estratégia política

Entrevista com Douglas Calixto, jornalista, pesquisador do MECOM, Grupo de Pesquisa Mediações Educomunicativas da ECA-USP, e doutorando em Ciências da Comunicação

Qual é a definição de um meme? Que elementos ele precisa ter para ser definido como tal? Humor, ironia? É somente uma imagem e um texto?

Existem algumas definições. Mas eu acho mais interessante partir do que eu trabalho no mestrado, com a definição de que o meme é uma linguagem. O que isso significa na prática? O meme é uma forma de expressão, uma forma de comunicação que as pessoas usam para dar sentido ao mundo, para fazer referências do dia a dia, do cotidiano, para fazer brincadeiras. É uma linguagem viva, que representa o mundo de hoje. Um mundo rápido, acelerado, articulado nas redes sociais. E toda linguagem é conecta com o seu tempo. A linguagem é um processo histórico. Eu sei que essa é uma definição muito teórica, mas acho que ajuda a gente a pensar um pouco na importância do meme na nossa vida.

Muita gente trata os memes como se fossem algo paralelo, separado da nossa vida, como “ah, isso é coisa da internet”, e não é bem assim, porque os memes são uma forma de representação da realidade, uma forma de entender a realidade, de dar sentido, de simbolizar a nossa realidade. Então, acho que a melhor definição é essa. O meme é uma linguagem, que representa a nossa relação com as redes sociais, com a dinâmica da timeline, então acho que esse é o primeiro elemento que a gente pode definir. E, claro, outros elementos vão entrando dentro dessa linguagem, como a ironia, o deboche, o humor. Eu acho que um conceito importante pra gente pensar os memes é essa ideia de prazeres imediatos. Ninguém faz um meme pra durar uma semana, um mês ou pra ser lembrado para daqui a um ano. O meme aproveita uma situação cotidiana para fazer um deboche momentâneo, efêmero. Essa é uma característica muito importante de um meme. Afinal, ele desaparece muito rápido da nossa timeline. Então você dificilmente vai lembrar de um meme que você viu na semana passada ou retrasada. Claro que algumas pessoas inclusive já fazer um pequeno acervo de memes, salvam no celular, mas, no geral, você vê um meme, tem ali um prazer imediato, rápido, dá risada e passa pro próximo, segue sua timeline do Instagram, do Facebook, do Twitter. E os memes têm essa característica. Então você precisa fazer um riso rápido, um despertar bem dinâmico do humor, para provocar o riso. Acho que são essas características.

No meu trabalho de mestrado, eu faço uma definição um pouco maior sobre o que é o gênero meme, o que é o subgênero meme, porque, claro, a gente imagina que o meme é só aquela imagem com texto fazendo ali uma paródia ou deboche de alguma situação, de algum artista, de novela, de alguma referência cultural. Mas no meu trabalho de mestrado, eu faço uma definição um pouco mais ampla do gênero meme. Ou seja, eu acho que o meme pode ser todas as definições, todas as linguagens que usam uma intervenção de um usuário da internet. O que eu quero dizer na prática? Às vezes um vídeo pode ser um meme, um gif, às vezes uma montagem da internet sem texto pode ser um meme, aquele jogo de zoom, um olho, um rosto da pessoa e vai aproximando até o olho pode ser um meme. Então, existe um conceito geral que você pode encontrar no meu trabalho de mestrado sobre o que é um meme. E aí tem essa ideia de subgênero, né?! Que a gente pode ter um subgênero de vídeo. Um exemplo que eu acho muito legal é aquele vídeo do Hitler, do filme A queda. Então, perceba que têm várias paródias utilizando o mesmo vídeo. Eu considero aquilo um meme, um subgênero de vídeo. Então, eu acho que essa é a primeira definição que a gente pode ter sobre um meme. E eu acho que ela ajuda a gente a pensar um pouquinho mais na ligação dessa linguagem com a sociedade comum que a gente vive. 

Qual a origem dos memes? Por que eles são virais e se espalham com tanta facilidade? E como eles sintetizam as mudanças da sociedade?

Sobre a origem dos memes, eu acho importante a gente pensar em algumas definições teóricas. A primeira é de um livro chamado O gene egoísta, de Richard Dawkins, que foi a primeira vez que se usou a palavra meme. E ela teve inspiração na palavra gene, porque no argumento do Dawkins, o meme, assim como genes, precisa se reproduzir para continuar vivo dentro de um organismo. Então o gene o humano é o que faz a gente permanecer vivo através da reprodução. Ele, em uma brincadeira, fez uma aproximação da palavra gene como meme, para dizer que você precisa reproduzir, compartilhar essa informação na cultura para que ela continue viva. Claro que eu estou fazendo aqui um super mega resumo da definição, o trabalho dele é muito mais complexo, explicando como as ideias circulam na sociedade, como os padrões culturais circulam na sociedade de forma mimética, se reproduzindo.

E muita gente ainda tem essa ideia, ao fazer estudo de memes, procura entender como é que esse meme viralizou, como ele se reproduziu na sociedade, assim por diante. Essa é uma abordagem importante, que eu considero necessária para entender os memes, só que meu trabalho vai para uma outra perspectiva, né?! Porque eu, enfim, estudo Ciências da Comunicação, e na Comunicação a gente tem uma certa restrição com essa ideia de transmissão, o Dawkins fala um pouco dessa ideia de que o meme pula de cabeça em cabeça através de uma transmissão viral e, desculpa, eu sei que isso é muito teórico, mas é importante a gente definir. Então, quando a gente trata de comunicação, a gente tá pensando em processos dialógicos, de trama cultural, sociabilidade, que não tem muito a ver com essa ideia do Dawkins de “memética”, de uma ideia que fica circulando pela sociedade de forma automática, viralizando.

Quando a gente trabalha com Comunicação, a gente está preocupado com linguagem, ou seja, como uma determinada frase, uma determinada imagem tem efeitos, atinge as pessoas, simboliza, como as pessoas interpretam essa mensagem. E meu estudo de meme está um pouco mais nesse sentido, neste sentido cultural. O Dawkins, por exemplo, é um biólogo, que trabalha com aspecto genético, etc. A gente que trabalha com Comunicação tem que se preocupar mais com a linguagem. O que esse meme quer dizer? Como as pessoas se relacionam com ele? Como esse meme pode transformar a cultura? É um pouco dessa abordagem que a gente busca. Por que o meme se espalha de forma tão rápida? Pelas características das redes sociais. Como eu disse, as redes sociais são rápidas, efêmeras, dinâmicas. E cada vez mais o texto está caindo de moda, porque as pessoas estão procurando coisas mais rápidas. Inclusive a gente usa um conceito aqui no nosso grupo de pesquisa que é o da aceleração social do tempo. Hoje o tempo está acelerado socialmente, os dias parecem mais curtos, parece que a gente não tem tempo pra nada, quando você observa o tempo já passou. A gente tá sempre com essa sensação de que está atrasado, e os memes atendem a uma demanda comunicativa, nesse mundo em que a gente vive. Então, o meme tem uma capacidade comunicativa muito maior, por exemplo, do que, sei lá, um texto. Ninguém tem muita paciência para ler esse texto, e isso é um pouco da mudança da sociedade. Uma mudança que a gente tá experimentando radicalmente. Cada vez mais você precisa estar atento a múltiplas informações, rapidez e o meme está ali pronto pra fazer você se divertir um pouco.

Essa dimensão do entretenimento é muito importante, porque pra aguentar viver no mundo de hoje, com tanta crise, dificuldades econômicas, sociais o meme é aquele momento de descontração que faz você aliviar um pouco dessa tensão. Então é claro que eles viralizam, porque as pessoas querem um pouco de diversão, um pouco de riso. Ninguém tá nas redes sociais só pra fazer política, economia, não. A gente quer se divertir um pouco, quer dar risada. Então eu imagino que o sucesso dos memes está mais nesse sentido, de atender uma demanda comunicativa, de um mundo rápido, acelerado. E, claro, essa dimensão do entretenimento, do risco, de fuga, de deboche, crítica social, porque tem muito meme que faz crítica social, você acaba, ali, debochando da tragédia. Eu acho que dá pra levar um pouco nesse sentido. 

Quais são os tipos de memes que mais fazem sucesso? De que assunto eles tratam?

Olha, eu não sei te responder que tipo de meme faz mais sucesso, até porque essa pergunta depende muito do público, das pessoas que interagem. Aliás, essa é outra característica dos memes, ele atende a um público especializado. Então, provavelmente o meme que está na sua timeline não é o mesmo que tá na minha e assim por diante. Hoje com os algoritmos, com as definições de rede, a segmentação da informação está cada vez mais radical. Então é praticamente impossível você ter o mesmo tipo de resultado de pesquisa, o mesmo dado de informação. Mas, claro, eu acho que os memes que mais fazem sucesso não está tão relacionado com o conteúdo, mas com a forma. Ou seja, são aqueles memes que aproveitam de uma situação do dia, alguma polêmica, alguma coisa que provoca o riso, que provoca humor, ou aqueles memes de crítica social que se aproveitam de um acontecimento do dia.

Como eu disse em uma outra resposta, são mensagens que não são feitas pra durar uma semana, um mês. Você não lembra de um meme de um mês atrás, dificilmente, a menos que seja alguma coisa que foi famosa. Pelo contrário, o sucesso momentâneo é efêmero, é ali no dia. Então eu não acho que é muito pertinente falar de que assunto, porque são variados, múltiplos. Se você for em uma rede, por exemplo, de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, você vai ver um tipo de meme que muitas pessoas que são contrárias ao presidente não vai ver e assim por diante. Se você gosta de samba, provavelmente na sua timeline vão aparecer memes de sucesso de samba e não de rock. Se você gosta de bossa nova, enfim, assim por dia. Está cada vez mais segmentado. Eu acho que pra falar de sucesso é mais pertinente pensar na forma do meme. 

Como os memes se relacionam com a política? Que tipos de memes são produzidos sobre esse tema? Os memes são usadas para espalhar fake news? Se sim, essa estratégia funciona?

Os memes são uma forma direta, objetiva de fazer comunicação. Eu falo que o meme, esse é um conceito que eu trabalho no meu mestrado, ele trabalha com micro narrativa. O que é uma narrativa? É aquilo que tem início, meio e fim. Você pode pegar teoria literária, os conceitos, narrativa é o que um enredo, uma história, que começa, tem desenvolvimento e em algum momento termina. O que é uma micro narrativa? É início, meio e fim numa mesma mensagem, rápida, dinâmica, feita para circular no WhatsApp. Então, essa características é muito utilizada no âmbito da política.

Como eu disse, hoje tá todo mundo com pressa, ninguém tem paciência pra nada, você precisa de tudo pronto e mastigado. E é por isso que o meme faz sucesso. Ele te explica algo de uma forma muito dinâmica e isso, pra fazer política, para explicar os acontecimentos, é fundamental. Outro elemento que funciona bem nos memes é o discurso polêmico. Polemizar. Então sempre que tem um deboche, uma paródia você acaba chamando atenção, acaba gerando engajamento, porque as pessoas têm interesse nesse tipo de conteúdo. Gera clique, gera comentário, então isso sobe no ranking das redes sociais e isso acaba ficando em evidência. E é justamente esse critério que é usado para espalhar fake news. É claro que essa estratégia funciona, porque as pessoas têm essa expectativa de receber o conteúdo pronto, rápido, dinâmico e não vão checar se é verdade ou não, porque elas já pularam pro próximo e ficam com aquilo na cabeça. Eu acho que a política se aproveita dessa linguagem, que não é uma linguagem só dos memes, é a linguagem da própria rede social, essa coisa do 140 caracteres, da micro narrativa, do rápido, do efêmero, é um pouco da cultura que a gente está criando. O que eu acho pessoalmente? Eu acho péssimo. Eu acho que a gente tá levando o nosso país, a nossa cultura para um lugar muito ruim, porque não dá pra discutir economia política, crise contemporânea, o mundo que a gente vive, em um meme.

O meme pode servir para fazer uma alegoria, para fazer uma brincadeira, mas para transformar a realidade, pra gente pensar de uma forma mais complexa, a gente precisaria ir além do meme. O meme não é capaz de explicar tudo. Ele tem uma capacidade muito grande de polarizar, porque vai recebendo só conteúdo personalizado, aquilo que te agrada, aquilo que te faz rir, aquilo que você concorda. Vai te afastando do contraditório, te afastando de um pensamento plural, complexo. Então, seja na dimensão política, seja na dimensão educativa, que é onde eu trabalho, precisa ter muito cuidado com a utilização dos memes, para não reforçar esse caminho tão ruim que a gente tá escolhendo, que é o caminho da polarização, da radicalização, do ódio, da intolerância. E é isso, o mundo não se explica em 140 caracteres, não se explica em uma imagem engraçada que você viu no Twitter ou no Instagram. A gente precisa ir além e a política precisa entender que a gente precisa construir algo mais sólido. É um pouco do que eu penso.

 

Entrevista feita por áudio no WhatsApp.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *