O que é a educação midiática e qual a sua importância no combate à desinformação

(Crédito: Reprodução)

O aumento global do acesso à internet e a popularização das redes sociais levou a um crescimento, ainda incalculável, da produção e disseminação de informações. No Brasil, pesquisas realizadas em 2019 demonstram que 94,2% da população utiliza redes sociais com o principal objetivo de enviar mensagens, fotos ou vídeos. Além disso, sete a cada dez brasileiros usam o WhatsApp e o Facebook como principais formas de se manterem informados.

No entanto, apesar do acesso ao conhecimento a um clique, a dificuldade em verificar o que é verdade também se faz presente na realidade das redes. Segundo a pesquisa TIC Kids Online 2016, publicada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 31% dos usuários(as) com idade entre 11 e 17 anos disseram não serem capazes de verificar se uma informação encontrada na internet está correta.

Este desafio não parece ter uma resposta pronta, mas conta com a ajuda de algumas ferramentas, como a checagem de fatos e a educação midiática. A educação midiática é uma área do conhecimento que visa dar ferramentas para que as pessoas possam ter um consumo consciente de informações, incentivando sua interpretação crítica, estejam elas no formato digital ou analógico, incluindo ensinar a população a discernir o que são textos opinativos, sátiras, notícias, reportagens e conteúdos patrocinados.

Em São Paulo, o Instituto Palavra Aberta possui o programa EducaMídia, projeto que realiza cursos de formação gratuitos sobre educação midiática para professores e estudantes. Para falar sobre a importância do estudo da comunicação e dos processos jornalísticos no combate à desinformação, entrevistamos a coordenadora do programa e jornalista Daniela Machado.

O que o EducaMídia? 

Ele é um programa de educação midiática que tem dois focos principais, um, é sensibilizar a sociedade para a importância do tema, gerar engajamento, explicar de certa forma o que é a educação midiática, porque é um conceito relativamente novo para a maior parte da população. E por outro lado temos a produção de conteúdo, formação de professores para abastecer a sociedade com materiais para que a gente consiga fazer com que isso se torne  uma realidade. Embora tenhamos essa pretensão de falar com a sociedade como um todo, gerar engajamento e tudo o mais, escolhemos, por uma questão estratégica, ter como público principal, pelo menos nesse primeiro momento, os professores.

E por que os professores?

Porque a gente tem uma baita oportunidade criada a partir da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) que influiu dentro de língua portuguesa uma série de habilidades que tem total ligação com a educação midiática. Lá na língua portuguesa, essas habilidades são amarradas dentro do que eles chamaram de campo do jornalismo midiático, mas não é só lá, se a gente olhar toda a base, veremos que as escolas vão ter que trabalhar muito com análise crítica, critérios para fazer pesquisa, entendimento de quais são as fontes de qualidade para pesquisa e em quem se pode confiar. Então assim existem pinceladas de educação midiática por toda a base, por toda a BNCC. Nós vimos nisso uma oportunidade e temos concentrado nossos esforços na formação de professores.

Qual a importância da educação midiática para combater a desinformação?

Não há uma única solução que seja a bala de prata que vai acabar com a desinformação

Acho que a educação midiática é fundamental. Não há uma única solução que seja a bala de prata que vai acabar com a desinformação, mas acho que a educação midiática é sim o caminho mais preciso e talvez um dos mais seguros para que a gente consiga melhorar o ambiente informacional. Existem outras ótimas iniciativas, todas elas têm seu mérito, como por exemplo, a checagem de informações e listas para você ficar atento se aquilo que você recebeu no WhatsApp é verdadeiro ou não. Com instruções como: olhe se tem origem, confira o URL, veja a cara do site de onde surgiu a informação, veja se tem uma área de quem somos. São muitas coisas que tem a sua serventia mas começam a não dar conta de tudo. Em medida que a gente vai tendo tantos acesso tecnológico e a desinformação começa a ter um grau de sofisticação muito grande. Não é mais com listas, com a gente fazendo um checklist, que conseguiremos dar conta. Estou falando por exemplo da era das Deep Fakes. Você tem rostos de pessoas criados sinteticamente. Eles colocam, por exemplo, palavras e frases que são construídas e colocadas na boca de outra pessoa sem que a gente consiga perceber. Porque utilizam um recurso que até pouco tempo pensávamos que só existiam em hollywood, mas agora estão relativamente acessíveis. Com um computador bacana dá pra fazer isso em casa. É importante que a gente esteja preparado, que seja uma formação de todos os jovens, ter habitualmente condições de interrogar a informação, de fazer essa leitura crítica, então achamos que a educação midiática é um processo se constrói a longo da vida toda. Não em um único ano ou semestre, mas algo que deve se perseguir o tempo todo na escola. Algo que vai nos dar uma habilidade para conseguir fazer uma leitura reflexiva de toda essa informação que vai chegar até nós.

Agora que as redes sociais se popularizaram e que o Facebook atinge um público mais velho, como alcançar essas pessoas e educá-las para o uso das tecnologias digitais? 

Temos visto muita gente tentando responder essa pergunta, porque realmente temos até pesquisas apontando que grande parte das pessoas que compartilham conteúdo falso estão na terceira idade. E aí realmente tem uma dificuldade de como falar com esse público. Acabamos escolhendo a escola. Falar com os professores e estudantes. Achamos que chegando no professor, que por sua vez vai chegar no aluno, talvez consigamos chegar na família. É uma via um pouco indireta, mas achamos que é possível, que o aluno estará mergulhado em um ambiente mais preocupado, indo atrás da informação que é compartilhada. Mais atento e com um olhar um pouco mais treinado para a interpretação da informação. Assim, ele vai acabar ajudando a família de alguma forma a também ter uma preocupação com tudo o que é compartilhado. Eu sei que existem algumas iniciativas que estão tentando falar com um público mais velho, mas não conheço alguma que já esteja rodando e que eu pudesse te contar e dizer que se foi bem sucedida ou não. Não sei se vocês conhecem aquele Vaza Falsiane? É um site e é como se fosse um curso online para jovens, contando um pouco do jornalismo, o que diferencia o jornalismo de outros tipos de informação. Fala das fake news, a gente nem gosta do termo,  mas eles estão tentando viabilizar uma segunda fase do projeto tendo como público terceira idade. É uma preocupação em vários lugares. Tem um projeto muito interessante que a gente conheceu, participando de uma iniciativa de educação midiática em Londres, e tinha uma iniciativa em interessante, não lembro de qual país, acho que era da Indonésia, que eles têm como público alvo as mulheres, donas de casa. E estão criando uma série de mini vídeos, dramatizando umas situações, fazendo como se fosse um mini série, para falar com a dona de casa. Situações em que ela está lá, chega uma mensagem, ela comenta em casa, e aí gera um debate na família. Lá, eles identificaram que as mulheres, donas de casa, eram foco de disseminação de desinformação.

Pensando em outras ferramentas que podem ser usadas para o combate a desinformação, você acha que a legislação é um caminho viável? Estamos vendo a aprovação de uma legislação que vai criminalizar as fake news e existe todo o impasse em conseguir provar que o autor daquela mensagem, assim como o disseminador, fizeram isso com o propósito de enganar. Também temos a questão da aprovação da lei de proteção de dados, como você vê essa questão legislativa?

O costumamos dizer aqui no instituto, é que, de maneira geral, proibir não resolve. O que resolve é educar. A gente acha que realmente o caminho mais seguro é o da educação, nesse caso a educação midiática. Preparar as pessoas para que elas tenham uma postura mais responsável, mais reflexiva diante da informação. Justamente por acreditar que talvez seja difícil você conseguir fazer isso pela  aprovação de uma lei. Tem todo esse problema que você já citou de encontrar autoria, rastrear o caminho dessa desinformação, provar a intenção. Acho que ainda tem outra dificuldade, no momento em que existe tanta distorção do termo fake news. E que há até apropriação política disso. Tem muita confusão com o termo. Quem vai dizer o que é e não é? Nós temos leis que protegem, por exemplo, a questão do jornalismo. A gente tem a legislação que faz com que o jornalista ou a publicação tenha que responder em caso de calúnia e difamação. Isso existe e deve ser acionado nos casos em que isso acontecer. Porque realmente não é algo fácil, como é que você faz na prática? Acho que é essa a pergunta. A partir de hoje fake news estão proibidas no país. Tá, mas e aí? A desinformação chega de tantos lugares, a internet abre as porteiras para você ter gente criando. A gente tem mil exemplos campanhas que são criadas nos lugares mais inimagináveis, então, é difícil pensar como é que seria na prática. Respondo sua pergunta devolvendo outra, como seria na prática?

Aproveitando o gancho do que você falou, do uso político do termo fake news, a gente vê vários governantes mundiais se apropriando disso, se apropriando do termo. O que você acha disso? O uso da desinformação como uma ferramenta política e governamental. O que você acha que podemos fazer com relação a isso, como jornalistas e sociedade civil?

Precisamos entender que o termo foi apropriado politicamente e é usado para desacreditar o jornalismo profissional. Em alguns casos, para algumas pessoas, virou sinônimo de “não falou bem de mim então é fake news”.

Acho que tanto quanto jornalista quanto cidadã o nosso papel é tentar esclarecer sempre que houver uma oportunidade. O estamos falando quando estamos nos referindo a desinformação. fake news é um termo que foi criado especificamente para designar aquele tipo de informação que era criada intencionalmente para enganar.  Seja por motivação política ou financeira, enfim, pra ganhar dinheiro, mas originalmente ela se referia ao conteúdo criado com a intenção de gerar medo e desinformar. Quando falamos de desinformação percebemos que as pessoas, de maneira geral, confundem muito. Acabam jogando tudo no mesmo balaio e chamando de fake news várias coisas que também são desinformação, mas não tinham a intenção de enganar. Por exemplo, pessoas confundem muito uma opinião ou sátira. Às vezes não percebem que é um conteúdo de humor. Ou o erro de um jornalista. Erros acontecem no jornalismo como acontecem em todas as profissões, mas se não foi intencional é só um erro. E há mecanismos que exigem transparência na correção. Devemos cobrar que assim seja. Eu acho que o nosso papel enquanto jornalistas, mas principalmente enquanto cidadãos, é dar nome aos bois. Temos que tomar cuidado para não sair chamando de fake news qualquer conteúdo. Precisamos entender que o termo foi apropriado politicamente e é usado para desacreditar o jornalismo profissional. Em alguns casos, para algumas pessoas, virou sinônimo de “não falou bem de mim então é Fake News”. E eu entendo que as pessoas usem o termo para que todos entendam sobre o que se está falando, mas é necessário causar esse tipo de reflexão. Em alguns momentos nós estamos falando de opinião ou de conteúdos patrocinados. Um erro do jornalismo? Ou um título que talvez não esteja bom e seja tendencioso, mas na matéria completa está explicado melhor. Do que que a gente está falando? Então acho que fazer essa diferenciação e levantar o debate para o uso inadequado do termo fake news é um com começo para todo mundo.

Você falou do uso do termo fake news pra poder descredibilizar a imprensa profissional. Você acha que o jornalismo pode estar perdendo credibilidade com esses ataques? Eles podem estar afetando o trabalho jornalístico que é feito aqui no Brasil?  

Acho que estamos vivendo um momento que é uma tempestade perfeita. Você tem uma ruptura do modelo econômico da mídia tradicional. A internet mudou muito o jeito como se faz jornalismo e os grandes veículos tiveram que passar por uma fase de adequação. Nem todos conseguiram, alguns estão lá tateando, tentando encontrar seu lugar ao sol. Junto com isso, a gente tem a pulverização da autoria, ou seja,  a possibilidade de que todo mundo seja um pouco produtor de conteúdo. Ao mesmo tempo todo mundo é público e produtor, com as redes sociais, os blogs, enfim. Eu acho que é um cenário desafiador para o jornalismo, e, acho que o que acontece na prática é o jornalista perdendo um bom tempo tendo que diferenciar o que é falso e o que é verdadeiro. Você poderia estar produzindo conteúdos legais, investigando, mas tem que ficar a todo momento provando que está fazendo algo que passou por um método e foi checado. Obviamente, erros acontecem mas existe todo um trabalho e cuidado para que seja o mais preciso possível. Nesse sentido acaba afetando o trabalho do jornalista. Mais do que nunca, o processo jornalístico precisa ser transparente. Faz parte do resgate da credibilidade. Abrimos a cozinha, mostrarmos que há trabalho de pesquisa, busca de melhores fontes, checagem e edição. Isso talvez nunca tenha sido claro para a população em geral. Talvez as pessoas não questionassem muito isso antigamente porque era a única forma de se informar.  Hoje, existem tantos canais possíveis que devemos mostrar qual a diferença do jornalismo profissional.

Você acha que as coberturas que foram feitas nos últimos anos focadas mais no jornalismo declaratório. Repercutindo o que políticos, e outras pessoas de influência, dizem sem necessariamente problematizar o conteúdo. Contribuem para o problema da desinformação?

Não sei se contribuiu para o problema. Certamente, a gente gostaria que o jornalismo fosse além do declaratório. Eu não me sinto confortável de fazer essa análise porque eu acho que cada situação é uma situação. É um debate super válido, acontece em vários lugares do mundo. Será que o jornalismo deveria parar de cobrir fulano disse? Sair do jornalismo declaratório para se aprofundar em algumas coisas? Por outro lado, você tem a decisão de cada editor ou jornalista. Tem a concorrência, tem o pensamento de que se eu não der o outro vai dar. Será que eu vou perder leitor com isso? Eu não sei te dizer a resposta não. Eu acho que é uma discussão válida, necessária, mas acho que ela é tão profunda e complexa que eu não daria conta de fazer em alguns minutos. Temos que levar em conta de que veículos estamos falando, a gente está falando de jornalismo em tempo real? A gente está falando do jornalismo mais aprofundado que vai levar mais tempo para ser construído? Enfim, acho que é uma discussão muito pertinente, mas não me sinto apta a responder assim de bate e pronto.

As grandes empresas de tecnologia e redes sociais, como o Google, Facebook e  Twitter, não se nomeiam como empresas de mídia. Postura que é alvo de críticas. O que você pensa disso? O que acha que a sociedade pode cobrar desses grandes conglomerados de tecnologia com relação a desinformação?

Eu acho que devemos cobrar sempre muitos cuidados com nossos dados, por exemplo, cobrar muita transparência para que a gente saiba e entenda como eles estão funcionando.   Como a informação vai chegar até a gente, quais são os mecanismos que fazem com que um determinado conteúdo chegue a um número absurdo de pessoas e outros não. Mas, acho que a gente tem que olhar também para aquilo que podemos fazer. Acho também que devemos estar cientes do viés de confirmação, que é uma tendência nossa, seres humanos, de acreditar e compartilhar aquilo que já confirma nossas ideias preconcebidas. As empresas de tecnologias têm responsabilidades, houveram falhas. Acho que há tentativas de correção, mas isso exige uma eterna vigilância nossa. Também acho que algumas coisas não podemos esperar que venham de fora. Acho que é um entendimento, uma construção, um novo letramento nosso para viver nesse mundo que agora conta com redes sociais. Está bacana, tem muita coisa legal, mas então vamos nos preparar, vamos entender o que é isso, vamos pensar sobre os algoritmos? Nós sabemos quais são os mecanismos de denúncia que elas oferecem? Nós conhecemos todas as possibilidades de mudar as configurações de exposição, o uso dos dados?  Acho que tem uma parte que nos cabe, que é importante de ser feita também, além da eterna vigilância sobre o que a tecnologia está fazendo.

 

Entrevista feita por telefone.

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