Jovem negro é perseguido após ser alvo de notícias falsas no WhatsApp

Por Daiane Tadeu

O jovem Gabriel Souza, borracheiro residente da cidade de Jundiaí, foi perseguido após realizar um ensaio de fotos no bairro Eloy Chaves. Gabriel é estudante de fotografia e estava em uma praça do bairro, quando imagens suas foram divulgadas em grupos do Whatsapp.

Segundo as mensagens, “um jovem suspeito” estava fotografando e filmando as casas da vizinhança. A mensagem alertava os moradores para “ficarem espertos”. “Quem encontrar esse rapaz por favor ligue para o 153, esse indivíduo está tirando foto das casas”, dizia um morador.

Gabriel mora com a família na cidade de Cabreúva, mas trabalha com o pai na borracharia da família, no bairro Eloy Chaves. (Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução/Folha de S. Paulo).

As informações falsas foram repercutidas pelo vereador da cidade Antônio Carlos (PSB). Em áudio, o vereador afirmou, “se vocês virem esse indivíduo pela rua, já liguem para o 153 porque a viatura da guarda já está tentando achá-lo pelo bairro. É um suspeito de estar filmando e tirando foto das casas aí”.

De acordo com o jornal Folha de SP, Gabriel começou a perceber uma movimentação estranha na vizinhança. Segundo ele, viaturas da guarda passavam pela borracharia olhando para dentro, como se o estivessem procurando. 

O jovem foi a duas delegacias realizar a denúncia. Acompanhado de seu pai e seu professor de fotografia. Em nenhuma delas conseguiu registrar o boletim de ocorrência;

“Eles disseram que não havia crime e se negaram a tomar providências. Em uma delas, sugeriram que eu tirasse uma foto com uma folha de papel sulfite com o meu nome escrito por extenso, para evitar problemas no futuro. Queriam me fichar”, diz.

“Em outra delegacia, disseram que eu deveria ficar uma semana sem fotografar. Depois disso, deveria andar com um certificado de algum curso de fotógrafo, um crachá, nota fiscal da câmera, e andar acompanhado”, afirmou Gabriel para a Folha.

Procurado pela Folha, o vereador Albino diz que a recorrência recente de crimes no bairro Eloy Chaves fez com que as pessoas ficassem assustadas e agissem assim. Segundo ele, não houve racismo.

“Ninguém fala em momento algum da cor dele. Ninguém diz que ele é branco, azul, rosa, verde ou qualquer outra coisa”, afirmou. De acordo com ele, imputar racismo a essas ações é obra de um adversário político seu na região que tenta “desconstruir” suas obras devido à proximidade das eleições de 2020. Ele diz que tomará as providências cabíveis na Justiça contra quem o acusar de racismo.

O garoto era um “desconhecido” que não mora no bairro, e que, por estar tirando fotos das casas, estava gerando temor, continuou o vereador.  Sobre o áudio, disse não ter acionado a guarda municipal e apenas ter sugerido isso à uma das moradias, que estava muito assustada.

Em nota à Folha, a Guarda Municipal de Jundiaí afirma que não fez nenhuma abordagem referente a Gabriel no bairro Eloy Chaves no dia 30 de setembro. A corporação também diz que a central 153 não registrou ligações sobre o caso. O texto também informa que duas ocorrências foram atendidas no bairro nesse dia.

A Secretaria de Segurança Pública afirmou, em nota, que “os fatos serão apurados” e que Gabriel “compareceu à seccional de Jundiaí, onde foi orientado quanto ao registro da ocorrência e sobre a disponibilidade do 1º DP da cidade.”

 

 

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