A importância do jornalismo profissional e da credibilidade

 

Entrevista com Francisco Belda, jornalista, professor e presidente do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo 

A pesquisadora Claire Wardle diz que fake news não é um termo adequado para se referir à complexidade dos fenômenos de desinformação, por isso, ela lança mão do conceito de ecossistema de desinformação. Você pode explicar por que o termo fake news não é suficiente?

Fake news é um termo contraditório e impreciso. O termo é impreciso, principalmente, porque a ideia que carrega é ambígua e simplista demais para descrever a diversidade de desinformação que existem atualmente na internet, conforme classifica a própria Claire Wardle. Por exemplo: falsa conexão, falso contexto, manipulação de conteúdo, conteúdo enganoso, conteúdo impostor etc. E o termo é contraditório pois, se é notícia, não poderia ser falsa, uma vez que o jornalismo profissional tem um compromisso primordial com o relato dos fatos da realidade. Se não há este compromisso, então não é jornalismo, não é notícia, mas sim um relato enganoso, de propaganda por exemplo, que se utiliza da linguagem jornalística para confundir ou manipular o receptor. Uma notícia até pode ser fraudulenta (se obtida de modo ilegítimo, por exemplo mediante suborno, ou se o repórter — mas não a fonte — comete um crime para obter a informação), ou pode estar errada, incorretamente apurada, e nestes casos o que cabe é a retratação e a correção. O problema maior aí, porém, é que o termo fake news acabou sendo apropriado por políticos — e outros agentes de poder — para rotular negativamente todo tipo de notícia (verdadeira) que os critique ou desagrade. Isso gera uma percepção equivocada na opinião pública do que é, de fato, a prática noticiosa diante de seu compromisso objetivo com os fatos. Por isso creio que o termo deve ser evitado, ou pelo menos relativizado.

O presidente Jair Bolsonaro fez uma série de ataques à imprensa neste ano, sobretudo à Folha de S. Paulo que, de acordo com ele, divulga apenas fake news. Você acredita que essa estratégia de descredibilizar a imprensa está sendo bem sucedida para os planos do presidente? Esta pode ser uma nova tendência de estratégia política para líderes?

A estratégia do presidente parece ser a de manter e até intensificar a polarização. Neste sentido, têm buscado caracterizar como força de oposição os veículos de jornalismo que não estejam ideologicamente alinhados com seu governo, ou que exerçam sua missão de crítica e apuração dos fatos de modo independente, ou que simplesmente publiquem informações que o desagradam. Se a estratégia será bem-sucedida em termos políticos e em médio e longo prazos, só o tempo dirá.  

Você acredita que os desertos de notícia, presente em diversos municípios brasileiros, impulsionam o ecossistema de desinformação?

A insuficiência de veículos de jornalismo profissional em muitas regiões do país prejudica a qualidade do acesso à informação. Com isso, as populações ficam carentes de informação crítica e de atualidade sobre suas localidades e, em alguns casos, também sobre o que se passa no país e no mundo. Nessa lacuna, os promotores de desinformação encontram mais espaço para operar.

Você acha que o jornalismo perdeu parte de sua credibilidade nos últimos anos e que, por isso, as fake news ganharam tanta projeção?

de fato uma crise de credibilidade, que atinge não apenas o jornalismo mas também outras instituições democráticas, incluindo órgãos de governo, o poder judiciário, o Ministério Público, entre outras. Essa crise tem causas complexas, que transcendem o jornalismo. Por exemplo, a polarização política da sociedade, os filtros bolhas decorrentes do uso intenso de redes sociais como meios de informação, o viés de confirmação que leva as pessoas a priorizarem informações que confirmem suas crenças preestabelecidas, entre outras. Em relação à imprensa, é preciso reconhecer que deficiências da prática jornalística, a precarização das redações e das carreiras do jornalismo, além da fragmentação da narrativa noticiosa em meios digitais, também contribuem para a deterioração do ambiente informacional e comunicacional na atualidade, criando um contexto mais propício para a difusão de desinformação.

As fake news foram importantes para a eleição de Trump e Bolsonaro, mas não sabemos o quão determinantes em convencer a maioria do eleitorado. Para você, o jornalismo tem responsabilidade na eleição desses candidatos autoritários, já que, inicialmente, não reconheceu a existência de um eleitorado expressivo desses dois candidatos?

Houve, de fato, falhas reconhecidas na cobertura dessas campanhas, por exemplo ao se reproduzir declarações extremadas, autoritárias ou inverídicas dos candidatos sem que estas suas condições fossem denunciadas com a devida veemência. Especialmente no caso brasileiro, a imprensa também parece ter falhado ao ter se deixado instrumentalizar por setores do Ministério Público e do Judiciário na cobertura de escândalos de corrupção, por meio de vazamentos seletivos e politicamente interessados, que impactaram a percepção do eleitorado favorecendo candidatos que se apresentavam como contrários ou alheios ao status quo político. Mas não creio que o jornalismo, de modo geral, possa ser responsabilizado pelo resultado dessas eleições — ou pelo menos não mais do que outros agentes e instituições igualmente influentes no debate público.

Você acredita que desinformação vem sendo utilizada por governantes autoritários como Trump, Bolsonaro e Putin para manipular a opinião pública e justificar seus planos e ações de governo? Por exemplo, recentemente Bolsonaro afirmou que as universidades privadas são as maiores produtoras de ciência no Brasil, o que é mentira. Você acha a estratégia de mentir e espalhar desinformação faz parte das justificativas do governo nas mudanças na educação? 

Desinformação sempre foi usada como tática política, desde a Antiguidade. O que temos hoje é, de um lado, o uso muito mais intenso de instrumentos tecnológicos capazes de potencializar o alcance dessas mensagens enganosas e, de outro, uma sociedade desconfiada e confundida pelo excesso de informação, cada vez menos capaz de distinguir entre o que é fato, o que é versão e o que é simplesmente inverdade.

Ano que vem teremos eleições municipais. Você acredita que a desinformação será um recurso utilizado nas campanhas? Sempre teremos que considerar as fake news nos processos eleitorais futuros?

Sim e sim. 

Qual a saída para esses processos de desinformação? A legislação é a melhor alternativa? A conscientização da sociedade?

Não acredito que projetos de lei que buscam criminalizar notícias falsas sejam a melhor alternativa, pois é muito difícil tipificar esse tipo de desinformação, o que poderia favorecer a censura e o cerceamento da liberdade de expressão. E mesmo havendo uma tipificação ideal, ainda seria virtualmente impossível fiscalizar sua emissão, caracterizar a motivação e controlar sua distribuição em âmbito global. Acredito que a melhor estratégia seja uma combinação de iniciativas de educação midiática, checagem e verificação de conteúdos e ações em prol da credibilidade jornalística. 

Google, Facebook e Twitter, algumas das principais empresas de tecnologia, se tornaram grandes empresas de mídia. No entanto, elas não se definem como tal. Qual o papel que essas empresas têm na divulgação de fake news? O que a sociedade e o Estado devem cobrar desses conglomerados?

Essas empresas operam plataformas gigantescas de distribuição de conteúdos que também favorecem a propagação de desinformação em escala global, por meio de buscadores, redes sociais e aplicativos de mensagem. Por isso, elas têm — e reconhecem ter –responsabilidade corporativa em relação ao mau uso que muitos atores fazem desses meios, seja criando perfis falsos, promovendo discurso de ódio ou usando robôs para disparos em massa de conteúdo enganoso ou fraudulento, por exemplo. Por isso, nos últimos anos, essas empresas passaram a recrudescer instrumentos internos de controle e verificação, além de apoiar projetos independentes dedicados a desenvolver técnicas de checagem e sinalização para distinguir conteúdo confiável ou nocivo na rede. Será inevitável avançar ainda mais nessas frentes, incluindo um amplo debate sobre a regulação das atividades de mediação, moderação e monitoramento exercidas pelas plataformas ou sobre elas, atentando-se também para eventuais efeitos colaterais de medidas que se mostrem excessivamente restritivas, uma vez que a fronteira entre o (auto)controle e a (auto)censura é sempre muito tênue.  

O quão prejudicial é para a democracia a falta de debate entre o governo e a imprensa? Visto que o presidente foge de entrevistas coletivas, não responde à críticas e a única maneira de contato com a população são as lives que faz semanalmente no Facebook?

Não se trata apenas de falta de debate, mas sim de embate. O mais grave é que, para além da postura pessoal do presidente, parece haver um ofensiva anti-jornalística mais ampla promovida por setores do governo e por seus seguidores. Algumas evidências são: declarações oficiais deliberadamente mentirosas, tentativas de desacreditar relatos objetivos dos fatos, desconfiança em relação à apuração científica de dados públicos oficiais, constrangimento do exercício do jornalismo crítico e independente, vazamento de e-mails de jornalistas e ataques em redes sociais e naturalização da violência e da truculência no discurso de agentes políticos diante do necessário escrutínio de suas ações e declarações públicas. A atividade da imprensa é fundamental para a democracia. A se confirmar o acirramento dessa polarização, a democracia — entendida de forma ampla, para além do simples direito ao voto — pode correr sério risco no país.  

Você é o presidente do Projeto Credibilidade no Brasil. Que outras iniciativas você considera relevantes no combate à desinformação no país? Quais resultados práticos vocês observam?

Na verdade, sou presidente do Projor e coordenador acadêmico do Credibilidade, que é o capítulo brasileiro do The Trust Project, e a coordenação executiva do projeto é da Angela Pimenta, diretora de operações do Projor. Há muitas iniciativas relevantes em curso no país no combate à desinformação e na promoção de um jornalismo de qualidade e mais confiável, tanto em nível acadêmico quanto profissional. Há grupos de pesquisa em universidades, como o ObjEthos, da UFSC, e programas de pós-graduação ligados à Compós dedicados a pensar o problema da credibilidade, da desinformação e o papel do jornalismo nesse contexto. Há diversas iniciativas de checagem de fatos, como o projeto Comprova, liderado pela Abraji, além de agências profissionais exclusivamente dedicadas a isso. Grupos de jornalismo de dados também têm feito um bom trabalho em organizar e divulgar informação de interesse público de modo claro e objetivo. Além de programas de crítica de mídia, como o Observatório da Imprensa, site pioneiro nessa modalidade no país, e de educação midiática, visando professores e estudantes de ensino básico e que também contribuem para a formação de uma opinião pública mais bem informada e crítica em relação aos meios de comunicação.

 

Entrevista feita por e-mail.

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