As câmaras de eco e fim do jornalismo, por Álvaro Pereira Jr

 

(Crédito: Reprodução/Globo)

O estudo “A disseminação da desinformação online”, realizado por pesquisadores da Universidade de Maribor na Eslovênia, examinou dados discutidos no Facebook entre 2010 e 2014. As informações usadas na pesquisa foram separadas em três categorias: notícias científicas, rumores de conspiração e posts feitos por trolls.

Apesar da extensa gama de informações disponibilizadas pela rede, o estudo descobriu que os usuários tendem a se agregar em comunidades de interesse, comportamento que causa o reforço de opiniões, a segregação e a polarização.

“Isso ocorre às custas da qualidade da informação e leva à proliferação de narrativas tendenciosas fomentadas por rumores, desconfianças e paranoias sem fundamento”, demonstra o artigo.

Este fenômeno caracteriza o que ficou conhecido na comunicação como “câmara de eco”. Eli Pariser, autor do livro Filter Bubble: How the New Personalized Web Is Changing What We Read and How We Think, já apontava o florescimento dessa situação em sua apresentação no TED em 2011: “existe uma consequência não intencional. Nós ficamos aprisionados em uma ‘bolha de filtro’ e não somos expostos a informações que poderiam desafiar ou ampliar nossa visão de mundo”, disse o autor.

Para falar sobre o impacto desses acontecimentos na produção jornalística, conversamos com o repórter especial do Fantástico e jornalista da Rede Globo há 24 anos, Álvaro Pereira Júnior, no congresso SET EXPO 2019.

Qual a função do jornalista no combate à desinformação?

“O que eu, como jornalista, posso fazer é ser cada vez mais rigoroso e cada vez mais procurar enfatizar ao máximo a importância do jornalismo profissional. Mas se isso vai ter uma ressonância fora dessa câmara de eco, a gente não sabe.

Sabe um parâmetro que eu tenho? Essa semana (26 de agosto de 2019), por exemplo, eu fiz uma matéria na Amazônia. No meu Twitter, tá tudo certo. Todo mundo entendeu a matéria. Mas vai no Twitter do Fantástico, que tem 10 milhões de seguidores, vai ler os comentários. Você quer se jogar daqui, nem daqui, tem que ser de um lugar mais alto.

As pessoas não entendem a matéria, aí os bolsominions estão reclamando da Globo, os lulaminions também estão reclamando da Globo que “só agora a Globo está mostrando matéria na Amazônia”. Cara, eu fiz um milhão de matérias na Amazônia. Então, de novo, no meu Twitter, que é dessa câmara de eco, a qual nós pertencemos, tá tudo certo. Mas no Twitter do Fantástico, que é o mundo real, é só porrada. Porrada de gente que não sabe nem no que está batendo, sabe?! Ainda que se alguém viu a matéria e está contestando alguns pontos, isso é absolutamente legítimo. Mas é gente que não sabe nem o que é, que não entende direito o que é jornalismo. Às vezes nem jornalista faz.

Em que momentos o jornalista reproduz isso?

Não sei se você viu o New York Times internacional, artigo na capa de uma articulista brasileira, da Vanessa Barbara, detonando o Bolsonaro. É o artigo dela, a opinião pessoal dela. O Lauro Jardim deu no Globo “o New York Times chama..” não, não foi o NYT, é um artigo assinado. Quer dizer, nem jornalista faz essa distinção, né, quanto mais as pessoas comuns. Para mim, o jornalismo acabou”.

 

 

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