A desinformação também atinge as crianças

Entrevista com Marcelo Duarte, jornalista e autor do livro infantil Esquadrão Curioso: caçadores de fake news, publicado em 2018 pela editora Panda Books 


Por que você decidiu escrever esse livro? Há muitas notícias falsas direcionadas a crianças?

Eu escrevi em um momento em que o mundo todo falava de fake news. Você abria o jornal e sempre tinha alguma coisa relacionada a isso. Foi logo depois da eleição presidencial, em que isso foi um tema recorrente, mas se falava muito ainda que as fake news atingiam um público adulto. Era de política, de economia. Era o contexto em que a gente estava vivendo. Ao mesmo tempo, eu fui surpreendido pelo meu filho mais novo, Antônio, que hoje tem 13 anos, mas na época tinha 11, que me mostrou uma notícia que ele tinha visto na internet, que era uma coisa muito infantil, era “cheirar um pum de outras pessoas aumenta a sua expectativa de vida”. E aí eu achei graça no começo e falei “não, filho, isso aí é fake news, não é verdade, não existe isso”. Aí ele começou a afirmar que tinha na matéria o nome de um cientista, nome da cidade. E aí eu falei pra ele “olha, depois do jantar vamos fazer uma pesquisa pra ver se a gente acha”. E isso acabou se dando de uma forma lúdica, a gente procurou o nome do cientista no Facebook e não achou. E ficamos ali, uma hora e pouco fazendo isso, e eu fui mostrando pra ele como ele tinha que começar a checar informações que, porventura, ele recebesse dos amigos, em grupos do WhatsApp. E naquela noite me ocorreu que as crianças estavam sendo o novo alvo também dessas pessoas que querem ganhar dinheiro com clique. E aí eu tive a ideia de “eu posso fazer um livro em que eu conte um pouco desse processo para criança”. 

E para esse público, quais são as fake news mais difundidas?

Tem muito de assombração, desafio, tem de tudo. Tem desde essa pegadinha de cheirando pum, por exemplo, que é engraçadinha, e tem aquelas assustadoras, de desafio, que você tem que fazer tal coisa. Eu fui em um site que revela se a notícia é verdadeira ou falsa, que é o e-farsa.com, pra tirar de lá as fake news, porque se eu inventasse, alguém poderia dizer que eu tinha exagerado, né?! Uma das notícias é que tem uma cidade nos Estados Unidos que de repente acordou e tinham baleias que tinham caído do céu no centro da cidade. Se eu tivesse tirado da minha imaginação, iam falar “ah, ninguém cairia numa história dessa, você tá exagerando”. Aí eu fui atrás do site que publicou essa notícia, ela estava circulando, então alguém escreveu, alguém publicou, muita gente compartilhou, muita gente acreditou, até ser desmentida. 

Como você acredita que o jornalismo deve se inserir nesse contexto de desinformação digital e retomar a credibilidade? 

Eu acho que esse é o DNA da nossa profissão. Sempre foi. Sempre teve que ir atrás da verdade, por mais difícil que seja definir o que é verdade, mas ouvir os dois lados, ponderar, pesquisar. Isso sempre foi o princípio básico da nossa profissão

Nas décadas de 60, 70 surgiu o conceito de desconstrução, seguindo a onda do pós-modernismo. Esse conceito defende que a verdade é relativa e parcial. Isso mostra que a relativização da verdade não é algo recente. No entanto, por que isso parece ser tão intrínseco ao ambiente digital?

Porque hoje qualquer pessoa tem esse poder de disseminar qualquer coisa. Em geral, quando a pessoa recebe uma fake news, ela compartilha, curte, porque ela acredita naquilo. E como ela acredita naquilo, ela acha que pode ser verdade, e ela passa pra frente. Ela jamais passaria uma coisa que ela não acredita, não confia. E as pessoas ganharam esse poder. Antes, a pessoa, para ter voz em um programa de rádio, num jornal, tinha que mandar uma carta, que demorava dias para chegar. Depois era o fax, que dava trabalho. Hoje você não concorda com uma palavra que o apresentador de TV ou de rádio diz, você está praticamente online com ele. E com outras pessoas. Você tem mais voz. Essas pessoas não tinham voz. Isso é fruto dos avanços tecnológicos. É aquilo, antes você tinha um cara que tinha umas ideias malucas e ficava restrito ao quarteirão da casa dele, era o vizinho que sabia dele, o prédio. Hoje esse cara fala com qualquer pessoa do mundo, ele pode marcar o presidente dos Estados Unidos e falar no Twitter dele. 

Essas agências de checagem são recentes. A existência delas até chega a ser uma contradição com o jornalismo. Você acha que a tendência é essas agências se expandirem cada vez mais, tendo em vista a crescente dos processos de desinformação?

Você foi perfeita no comentário, porque qualquer órgão de imprensa já uma agência checadora de notícias. É que se criou esse nome. Mas eu vejo como imprensa, que diz que está checando fatos. Não é uma coisa que inventaram agora. Sabe quando tem um lugar que ganha um nome diferente, um nome bonito? Você quer dar um ar de uma coisa diferente, nova. Eu trabalhei muitos anos na Veja, e na Veja tem um departamento que chama checagem. Acho que existe até hoje. A checagem era um grupo de revisores, mas não revisavam língua portuguesa, na Veja tinha revisores e checadores. Aí a gente acabava de escrever uma matéria e passava para checagem. Aí o cara pegava todas as informações possíveis de serem checadas no meu texto e ia bater com alguma outra fonte. Isso já existia.

Quais redes têm maior facilidade de disseminação de fake news? O que essas empresas devem fazer para limitar a propagação desses boatos? Você acha que o Estado precisa intervir? Se sim, como?

Assim, eu não sei se tem uma rede que é mais propícia, menos propícia, mas para mim o maior disseminador é, sem dúvida nenhuma, o WhastApp. Os grupos do WhatsApp é onde a coisa corre mais depressa, onde você recebe uma notícia de uma fonte não oficial. Você recebe de um amigo, de alguém que você confia, de alguém que pensa como você. Então, o WhatsApp tem um poder muito forte. Eu não vi resultados práticos ainda das grandes empresas que estão dizendo que iam chamar checadores, dessas agências para ajudar, para alertar. Eu nunca recebi um alerta de que a notícia podia ser falsa. Eu não vi ainda o que prometeram.

Do governo intervir, é complicado, né?! Se a gente fala tanto que os governos, para se elegerem estão usando essa práticas, eu não creio que eles vão acabar com isso. Eu acho que viram que isso é um instrumento poderoso para conquistar poder. Agora, a gente fica sempre naquela velha história, um povo educado, um povo que tem um bom nível escolar tem discernimento. Se uma é pessoa é crítica, se ela lê, é bem informada, qual a chance dela acreditar em qualquer coisa? A gente sempre cai na questão da educação.

Como o cidadão comum pode reconhecer, na prática, uma notícia falsa?

Geralmente uma notícia falsa é uma que foge um pouco do lugar comum. Ela tem um quê de “será que é verdade?” Tem que procurar. Eu sempre procuro, dou uma olhada no UOL, na Folha, no Estadão. Eu não compartilho nunca antes de dar uma olhada. Eu olho no e-farsas, vou dar uma olhada pra ver se alguém já desmentiu. É usar a internet a seu favor. Por exemplo, eu estava almoçando no dia da morte do Boechat e recebi uma mensagem por WhatsApp. Era um amigo que colocou num grupo. Aí imediatamente eu fui pro UOL. Antes de qualquer comentário, antes de passar pra qualquer pessoa, até antes de falar pra pessoa que estava na minha frente, eu fui checar. 

Acontecimentos políticos recentes são marcados por desinformação. Você acredita que essa tendência vai permanecer nas próximas eleições?

Ah, com certeza. Tem gente que está se beneficiando disso, eu acho que continua. Vai continuar, acho que não muda, como não mudou mesmo depois das eleições, a gente continua tendo uma guerra de desinformação, de todos os lados. Termina uma eleição e parece que no dia seguinte já começa outra. Mas de todo modo aumenta também as chances de oportunidade dos jornalistas aumentarem, porque as pessoas vão perceber como o trabalho jornalístico de verdade vai ser cada vez mais necessário. Então, essas grandes empresas que você falou, o Facebook, o Google, eles vão precisar de pessoas com esse perfil jornalístico, se de fato eles forem ajudar as pessoas a identificar notícias falsas, essas agências checadoras vão precisar de mais gente, porque é de interesse de grandes empresas, corporações combater isso. Vai haver investimento nisso, patrocínio. Então acho que sim, vai continuar tendo a guerra da desinformação, cada vez mais pesada. Mas aumenta a chance da gente, a gente digo jornalistas, de trabalhar, fazerem o que sempre fizeram, de mostrar a verdade, ou pelo menos, o mais próximo disso. O que se está exagerando, o que está mentindo, o que está tentando se passar por verdade. Acho que o futuro pode ser bom pra nós.

Quem são as pessoas mais atingidas por fake news e por que é tão fácil a sociedade fazer um revisionismo histórico e científico? (terraplanistas, movimento antivacina, saudosos da ditadura militar)

Eu acho que a gente volta para aquele tema que pessoas que acreditam que vacinas fazem mal, que a Terra é plana, elas sempre existiram. O que acontece é que essas pessoas ficavam restritas a pequenos espaços, pequenos lugares, e essas pessoas não apareciam. Elas só tiveram, agora, o discurso amplificado. Se você faz uma pesquisa vê que tem muita fake news na história, de pequenos tablóides que publicavam notícias contra políticos, ou de jornais que queriam enganar o leitor em determinadas datas, como 1º de abril. Mas agora, por causa do desenvolvimento tecnológico, isso ganhou um tamanho muito grande. Como tudo ganhou. A internet trouxe uma série de benefícios mas uma série de malefícios junto. 

Eu não vejo as pessoas mais atingidas (por fake news). Um pai que tem um filho que pega uma doença porque não deu vacina é muito mais atingido que qualquer pessoa. Ou uma criança que se mata, porque viu o desafio da baleia azul. Você tem vários tipos. Quanta criança hoje deve estar sofrendo depressão por causa de bullying cibernético? Enfim, é muito difícil dizer quem sofre mais, acho que todo mundo já teve algum tipo de problema por causa de internet. Que brigou na internet, que espalhou notícia que não devia e se arrepende. Antigamente, tinha uma campanha do carro a álcool: um dia você vai ter um. Eu te diria que problemas por causa de fake news é mais ou menos isso, um dia você vai ter um. Todo mundo. 

Você comentou que essa é uma oportunidade para o jornalismo. Mas quais são os principais desafios de fazer jornalismo nesse atual contexto?

Hoje a gente faz jornalismo com pouco recurso. Antigamente, você tinha mais tempo pra fazer uma reportagem, para apurar, tinha mais condição de ir até a fonte, de conversar. Hoje você faz a coisa mais pelo telefone, você tem um monte de pauta, faz mais depressa. Eu acho que o problema pode ser de estrutura. Ao mesmo tempo, hoje o jornalista tem ferramentas maravilhosas. Você, por WhatsApp, acha qualquer pessoa. No Facebook também. As organizações têm os dados nos seus sites. Você tem muita coisa publicada online. Você tem grandes vantagens. Você tem que saber se aprofundar, pesquisar. Acho que isso é uma das coisas mais importantes que devia aprender na faculdade, fazer uma boa pesquisa, sobre como encontrar as fontes mais confiáveis. Acho que isso é o maior desafio. 

 

Entrevista feita por telefone.

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